Uma senha ser-lhe-á enviada por correio electrónico.

Todos os dias, desde setembro, o parque Maximilien, em Bruxelas, junto ao Serviço belga de Estrangeiros e à Gare du Nord, é palco de uma “operação solidária” levada a cabo pela Plataforma Cidadã de Apoio aos Refugiados.

Mais de 2.000 voluntários sucedem-se para dar acolhimento, por uma ou mais noites, a cerca de 500 refugiados que, sem este apoio, dormiriam ao relento nestas noites frias de inverno.

A responsável pela área do alojamento na Plataforma é uma portuguesa. Chama-se Adriana Costa Santos, mora em Bruxelas há dois anos e falou com o LusoJornal.

 

Como chegou a Bruxelas?

Eu sou de Lisboa e cheguei a Bruxelas há 2 anos, nos finais de 2015, nomedamente aquando da crise dos refugiados da Síria e do Iraque. Inicialmente vim para fazer voluntariado durante um mês e finalmente fui ficando mais um mês e… até agora. Acabei por ficar aqui, fazer o meu mestrado e continuei na mesma organização.

 

Quando nasceu a Plataforma?

A Plataforma foi criada em 2015 quando aqui, neste parque, se formou um campo de refugiados, no bairro da Gare du Nord, onde há uma forte concentração de emigrantes. Em 2015 todos os que vinham pedir asilo na Bélgica acabaram por se concentrar aqui à espera que o seu pedido fosse acedido. Neste momento a crise é diferente, os refugiados vêm essencialmente da Etiópia, do Sudão ou da Eritreia. São emigrantes que estão em trânsito e querem ir para a Inglaterra e como não são requerentes de asilo, não têm direito a ajuda material do Governo belga, não têm direito a um Centro de acolhimento e portanto são os Cidadãos que ajudam para a alimentação ou para encontrar um sítio para dormir.

 

Como é que tudo se organiza todas as noites?

Este é o Departamento que eu cordeno na Plataforma. Temos um grupo nas redes sociais onde diariamente centenas de pessoas propõem-se para acolher refugiados em casa. O encontro é aqui no parque, a partir das 20h00. Os refugiados sabem que é aqui que têm de vir e é a partir daqui que há voluntários que vêm de carro para levar os refugiados a casa de pessoas que podem acolhê-las. Em todo o país – e não só em Bruxelas – há centenas de pessoas que acolhem os refugiados por duas ou três noites.

 

Têm algum apoio governamental?

Não. É uma iniciativa unicamente cidadã, que já dura há 4 meses. Já foram alojadas mais de 500 pessoas por noite, todos os dias, desde meados de setembro e o Estado continua sem reagir. A iniciativa surgiu quando houve intervenções da Polícia aqui no parque onde as pessoas dormiam. Durante o verão, a Polícia aparecia cedo de manhã para os prender e mandá-los embora. Os Belgas reagiram então a essas ações inumanas e mobilizaram-se para os acolher em casa e assim ter a certeza que a Polícia não possa intervir.

 

Mais de 500 refugiados a alojar por noite… é necessário uma grande logística…

Isto implica centenas de voluntários. Desde setembro até hoje, mais de 2.700 famílias acolheram refugiados em casa, o nosso grupo nas redes sociais conta com mais de 29.000 pessoas inscritas e entre os que alojam, os que estão qui diariamente a organizar o alojamento, os que vêm para os levar de carro, e os locais onde são concentrados roupas, comida e produtos de higiene, estamos a falar de mais de 2.000 voluntários permanentes nesta causa.

 

Há outros Portugueses implicados?

Sim, há outros Portugueses implicados e que acham interessante podermos tratar a logística em português também.

 

A Plataforma é uma associação formal, ou apenas um grupo informal de pessoas?

A associação é reconhecida a nível jurídico. A Plataforma foi fundada por cidadãos que passavam aqui neste bairro e que se juntaram para recolher tendas, comida e vir fazer voluntariado. Desde que a crise começou a acalmar-se, começámos mais numa perspetiva de integração e a Plataforma tem uma sede onde há apoio jurídico e social, não só para as pessoas que pedem asilo, mas também quando obtêm o estatuto, para encontrarem casa, trabalho, integração das crianças no sistema escolar belga, um espaço feminino, com psicólogos dedicados às mulheres refugiadas, uma escola de francês, flamengo e inglês para adultos e crianças e durante a fase de integração, deixámos de estar presentes aqui no parque. Neste momento, desde novembro de 2016, com o desmantelamento do campo de refugiados em Calais, houve centenas de refugiados que vieram para Bruxelas e voltamos a uma fase de urgência e a precisar de satisfazer necessidades básicas, dar de comer, roupa, médicos para virem aqui. Começámos de novo a alojar 10, 20 pessoas por dia, e hoje conseguimos alojar diariamente cerca de 500 pessoas em casas de famílias.

 

Ainda há quem durma aqui no parque?

Hoje raramente. Pode acontecer porque os nossos voluntários são isso mesmo… são voluntários e pode haver um dia em que temos menos. Mas há efetivamente poucos que dormem aqui no parque.

 

 

Gostou deste artigo? Vote, participe!
Votação do Leitor 6 Votos
8.5