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Portugal é fashion e o mundo já sabe

FOTO : Aris Setya FOTO : Aris Setya FOTO : Aris Setya FOTO : Aris Setya FOTO : Aris Setya FOTO : Aris Setya FOTO : Aris Setya FOTO : Aris Setya

Este ano a Associação do Têxtil e Vestuário Portuguesa (ATP) decidiu convidar jornalistas de oito nacionalidades para acompanhar o Portugal Fashion. O evento organizado pela ATP e pela Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE) decorreu entre os dias 14 e 17 de Março na Alfândega do Porto. Durante dois dias jornalistas da Bélgica, Brasil, Espanha, França, Grécia, Indonésia, Montenegro e também Portugal assistiram aos desfiles dos estilistas portugueses e conheceram as empresas e marcas presentes. O sector têxtil tem colocado a etiqueta ‘Made in Portugal’ no top de vendas da Europa, é um dos principais responsáveis pelo aumento das exportações portuguesas e tem dado provas que Portugal é fashion e o mundo já sabe. O Lusojornal viajou até à cidade Invicta para descobrir mais sobre este sucesso.

 

Saímos de Bruxelas agasalhados, deixando para trás a chuva e as nuvens carregadas. Duas horas depois aterrámos no Porto, dando de caras com um céu de tonalidade azul tão singular que não precisava sequer de filtros para o Instagram. Caminhámos desde o hotel até à Alfândega seguindo as margens do Rio Douro e contemplando a vista para Vila Nova de Gaia. Eu, desta vez, regressava a casa integrando uma comitiva de jornalistas estrangeiros e via o Porto de fora para dentro, acompanhando os olhares curiosos de quem conhecia pela primeira vez a pronúncia do Norte.

 

Pelo caminho conversei com uma jornalista francesa. Julie nasceu em Paris e teve uma ama portuguesa. Disse-me que conhecia bem o sabor do bacalhau português. Durante a sua infância comia várias vezes o prato ouvindo os ritmos nostálgicos do fado, mas agora queria aproveitar esta viagem para conhecer outras especialidades e sabores portugueses. “Antigamente os meus avós franceses por exemplo associavam Portugal ao homem com o tradicional bigode e à mulher de saia comprida até ao joelho. Tudo por causa do estereótipo associado à emigração portuguesa. Mas essa imagem está completamente ultrapassada. Portugal é um país que está na moda”, diz-me. O evento Portugal Fashion procura precisamente provar há vários anos que o país está literalmente na moda, sendo já uma referência no mercado têxtil externo.

As mulheres da fábrica VS os negócios da China

O sector têxtil evoluiu, adaptou-se às exigências, inovou muito e contribuiu de uma forma incontornável para a mudança na imagem de Portugal. Ainda me recordo que quando era miúda na minha zona havia uma fábrica. Era o local para onde se encaminhavam todos os dias as vizinhas, as suas primas e tias, algumas mulheres chegavam mesmo de autocarro para trabalhar durante uma época áurea do têxtil em Portugal. Entre 2007 e 2008 a fábrica passou a viver no fio da navalha e as máquinas de costura que preenchiam a grande garagem começaram a desaparecer. Mais tarde a confeção fechou, vítima dos negócios da China, que quase ‘ridicularizaram’ os preços praticados pelos pequenos produtores. O empresário, na altura conhecido na cidade, emigrou para a Alemanha, deixando os dois filhos e a mulher em Portugal, com a esperança que um dia ainda conseguiria coser aquele imenso buraco.

 

Foi nessa altura que a Associação do Têxtil e Vestuário Portuguesa (ATP) decidiu alterar a estratégia de jogo e começou a acumular pontos. Portugal precisava de estancar a exportação de mão-de-obra e acelerar a exportação de matéria-prima e, para isso, precisava apenas de se diferenciar dos restantes mercados. À qualidade dos seus produtos, o sector têxtil somou tecnologia, um design inovador e relançou-se no mercado externo com uma equação vencedora. Hoje os líderes dos clusters nacionais do calçado e dos têxteis não têm dúvidas de que foi exatamente a ameaça da China que marcou o ponto de viragem para indústrias de valor acrescentado e hoje são globalmente competitivas e geradoras de emprego qualificado.

Já dentro da Alfândega e num dos principais corredores do evento, o Diretor-Geral da Associação do Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP) deu-nos a conhecer melhor esta evolução do sector português. De acordo com Paulo Vaz, depois do decréscimo em 2008, “o caminho que restava era diferenciar os produtos e os serviços portugueses” e diferenciá-los superiormente, fazendo-os subir na cadeia de valor. “Nós aproveitámos a inovação tecnológica, utilizando novos materiais e também os tornando mais atrativos esteticamente. O Design obviamente faz parte desta equação”, sublinha. A Associação do Têxtil e Vestuário Portuguesa (ATP) fez uma aliança com várias associações do sector e juntas, trabalhando em uníssono, procuraram resistir à escalada da China. “Curiosamente na Europa fomos o único país que procurou resistir à abertura descontrolada dos mercados e só tivemos como aliados, por incrível que pareça a Turquia e os Estados Unidos”, acrescentou.

 

Mas de acordo com o diretor-geral da ATP, para remendar esta situação não bastava inovar, embelezar e esperar pela “divina providência”. A associação também incentivou os empresários a viajarem para o estrangeiro, abrindo-lhes a porta grande para as principais feiras internacionais. “Depois claro, também não esperámos pela divina providência e empurrámos os nossos empresários a irem cada vez mais para fora para se modernizarem e participarem em feiras internacionais”, afirmou em entrevista ao Lusojornal. “Hoje não há nenhuma feira internacional onde não estejam presentes empresas portuguesas e estão no centro dessas feiras”, sublinhou.

Portugal Fashion abriu o diálogo entre os criadores e a indústria têxtil

Eventos como o Portugal Fashion surgiram nesta sequência, procurando também aumentar o valor do sector. Numa grande sala, ao lado do stand da ATP, várias empresas do sector têxtil português apresentaram também as suas mais recentes criações. De acordo com o CEO da Associação Seletiva Moda Manuel Serrão, também presente na Alfândega, “no início praticamente não havia diálogo nenhum entre os criadores e a indústria”, mas a relação entre estes dois mundos tem vindo a melhorar. “Antigamente os criadores achavam que a indústria só fazia coisas que não interessavam e a indústria achava que os criadores só faziam coisas que ninguém vestia. Eles estavam basicamente de costas voltadas e nem desfilavam no mesmo sítio. Achavam que eram linguagens diferentes, mas hoje, e muito graças a eventos como Portugal Fashion, já sabem que a língua é a mesma, embora uns escrevam de uma maneira e outros de outra”, afirmou.

 

Há vários anos que a Associação Seletiva Moda concorre a projetos de apoio à presença de empresas portuguesas do sector em feiras no estrangeiro. Neste momento têm um projeto com uma faturação de 14 milhões de euros, apoiam mais de 300 empresas em mais de 1000 participações e estão em 85 feiras de 35 países por ano. “O nosso apoio só pode incidir sobre empresas que estejam sediadas em Portugal”, explicou Manuel Serrão. “O empresário até pode estar lá fora ou o capital ser estrangeiro, mas a empresa tem que pagar impostos em Portugal para beneficiar dos nossos apoios”. De acordo com o CEO da Associação, graças à promoção que fazem a nível internacional, já alguns empresários com raízes portuguesas radicados em França, vieram até ao seu encontro depois de abrirem empresas em Portugal e neste momento beneficiam dos seus apoios.

“A nossa marca começou apenas com o mercado estrangeiro”

De facto, cada vez mais, as grandes feiras internacionais do sector têxtil são pontos de passagem obrigatórios para as empresas já lançadas no mercado e são autênticas rampas de lançamento para as marcas que procuram entrar. Depois da apresentação sobre o sector têxtil português conduzida pelo diretor-geral da ATP, visitámos as marcas portuguesas presentes no Portugal Fashion. A ‘The Cotton Brothers’ estava logo à entrada e estreava-se no evento. Tal como o próprio nome indica, a marca foi fundada pela jovem Odete Santos e pelo irmão Nuno. Oriundos de uma família que gere uma empresa têxtil há mais de 35 anos em Portugal, os dois cresceram no meio do ramo e um dia decidiram criar a sua própria marca. Começaram precisamente ao contrário, participando apenas em feiras internacionais e vendendo principalmente para o exterior. Mas este ano já começaram a introduzir os seus produtos no mercado nacional, conquistando o continente e até as ilhas. “Nós começámos a abrir os mercados de França, Inglaterra, Espanha e Irlanda e agora, só a partir deste último ano e meio, é que a marca está a ser comercializada em Portugal em grande força”, explicou a fundadora.

 

95% da sua produção é feita pela empresa familiar e procuram divulgar a etiqueta ‘Made in Portugal’ no estrangeiro. De acordo com Odete Santos, em 35 anos a família assistiu e ultrapassou as diferentes fases do sector, conseguindo estar sempre “um passo à frente para evitar as crises”. “Uma das coisas que nós sempre fizemos foi diversificar os nossos clientes porque se nos focarmos apenas num e, se ele depois procurar outros fornecedores noutros países, podemos ter uma quebra muito grande”, afirmou. De acordo com a jovem empresária, “em 35 anos o sector têxtil mudou radicalmente. “Antigamente as empresas internacionais vinham cá e traziam as fichas técnicas e os modelos para nós produzirmos. Hoje em dia não. Hoje somos nós que vamos lá, mostramos coleções e investimos imenso dinheiro em design”, acrescentou.

 

Durante dois dias o Portugal Fashion apresentou vários desfiles e deu a conhecer várias marcas. As empresas nacionais apostam cada vez mais na tecnologia, no design, em técnicas sustentáveis e amigas do ambiente, dando provas que o país é Fashion e o mundo sabe, conhece e compra ‘Made in Portugal’.

 

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