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Paula Cordeiro trabalha para a Comuna de Bruxelas, no Departamento do Património e é a arquiteta responsável pela preservação da Grand-Place – “uma das mais bonitas praças do mundo” como ela própria diz – inscrita na lista do Património mundial da Unesco desde 1998.

Paula Cordeiro nasceu em Almada, estudou arquitetura na Faculdade de Lisboa mas veio fazer um mestrado em Louvain, onde chegou em outubro de 1989. “Vai fazer este ano 30 que cheguei pela primeira vez à Bélgica” sobressalta, como quem toma consciência que 30 anos é quase uma vida… “Fiz um mestrado em conservação do património porque sempre me interessou este tema” diz ao LusoJornal. Depois quis saber como se trabalhava em Bruxelas nesta área e tive a sorte de, cinco anos depois, concorrer para o posto que ocupo hoje no Departamento de património que foi criado naquela altura”.

O Departamento tem três arquitetas. “Começámos por fazer um estudo histórico e arquitetónico da praça, depois fizemos as patologias das fachadas” explica.

A história da Grand-Place é antiga. Na Idade Média as casas eram de madeira, mas este já era um centro comercial importante na cidade. No fim do século 17 foi bombardeada pelas tropas francesas de Luís 14, mas acabou por ser reconstruída em pouco tempo.

Paula Cordeiro considera que Charles Buls, Bourgmestre de Bruxelas entre 1881 e 1899 foi “um visionário”. “Ele decidiu fazer um restauro da Grand-Place para que ela tenha o brilho que tem hoje. E para isso, assinou uma Convenção com os proprietários, para que a praça mantenha esse brilho, sendo que era a Câmara municipal a pagar a manutenção e e restauro”. A arquiteta explica que “ainda hoje é essa Convenção que faz com que a Câmara municipal faça intervenção nas casas privadas”.

Neste momento, a Câmara municipal é proprietária de 7 edifícios na praça, o edifício da Comuna e o Museu da cidade, antiga Casa do Rei, e mais alguns edifícios. Todos os outros são propriedade privada. “Nós só fazemos intervenção nas fachadas. No resto do edifício é da responsabilidade dos proprietários”.

Até há bem pouco tempo, um Português vivia numa das casas da Grand-Place, era o proprietário de um dos restaurantes na praça mais conhecida da Bélgica. “Ainda há algumas famílias a viver na Grand-Place, mas na grande parte são escritórios e instituições” confirma Paula Cordeiro.

“Se nós pensarmos que só em 1936 é que foi aprovada a lei da preservação das casas patrimoniais, isto mostra até que ponto Charles Buls foi um visionário para o tempo dele”.

A classificação da Grand Place na lista do património mundial da Unesco foi uma decisão importante para a capital belga. “A praça foi classificada com 2 critérios. Pela beleza da arquitetura das fachadas, reconstruída imediatamente após o bombardeamento de Luís 14, no estido ‘Barroco Tardif’, e por se tratar de uma praça com vida, com atividade comercial desde há muitos séculos”.

Quando, em 2018, a cidade comemorou os 20 anos de classificação na lista do Património mundial, a equipa de Paula Cordeiro mandou colocar o logotipo da Unesco em bronze, na calçada, em todas as ruas que dão acesso à praça. Depois organizou uma conferência sobre o edifício do Hôtel de Ville, “que ainda necessita de uma intervenção no telhado”.

E quem visitar o Museu da Cidade pode ver ainda uma exposição sobre a história da praça, em 9 capítulos, desde a idade média, onde as casas eram em madeira, passando pela época em que foi bombardeada, pela reconstrução, pelo restauro, até às obras dos nossos dias. “É importante mostrar que a praça está viva, há aqui eventos praticamente todas as semanas e é visitada por milhões de turistas por ano” conta Paulo Cordeiro.

O Museu acolhe também peças únicas, como o original da estátua de S. Miguel, porque a imagem que está hoje no cimo da torre com 96 metros do Hôtel de Ville, é uma réplica.

O Departamento do Património da Câmara de Bruxelas faz regularmente um Plano de Gestão para 6 anos, avaliado ao fim de três anos. Mas este não é o único domínio de intervenção da arquiteta portuguesa. “Temos outras obras. Por exemplo, acompanhamos monumentos e também damos pareceres sobre edifícios classificados ou de interesse patrimonial” explica Paula Cordeiro.

Regressar a Portugal não é propriamente uma vontade de Paula Cordeiro. “Digamos que tenho muitas ligações com Portugal, com a minha família que está praticamente toda lá, mas não mantenho nenhum contacto com o mundo profissional português” confessa ao LusoJornal. “Por isso, a ideia de ir trabalhar neste setor para Portugal, pode ser estimulante, mas não tenho qualquer contacto e por isso não está nas minhas espectativas”.

Mas tendo em consideração a paixão com que fala da Grand-Place, é natural que queira continuar com a responsabilidade da preservação desta pérola da lista do Património mundial.

 

 

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