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Páscoa é sinónimo de Pão de ló, mesmo para os portugueses que estão além-fronteiras

Foto: Aris SetyaFoto: Aris SetyaFoto: Aris SetyaFoto: Aris SetyaFoto: Aris SetyaFoto: Aris Setya

À mesa da Páscoa dos portugueses, não pode faltar Pão de ló. E mesmo se estão longe do país, correm até às mercearias portuguesas à sua procura ou encomendam especialmente para a ocasião. Esta Páscoa o Lusojornal viajou até Felgueiras integrado num grupo de jornalistas e bloggers estrangeiros para precisamente descobrir a história que envolve a massa deste doce típico português. Regressámos a Bruxelas com a barriga e o coração cheios. E claro, com um Pão de ló na bagagem.

 

O Pão de ló de Margaride é um dos mais procurados, talvez pela sua história. Tem mais de 300 anos e os registos mais antigos da produção do doce encontram-se na freguesia, atualmente localizada no centro da cidade de Felgueiras. Para honrar o seu passado e promover ainda mais o seu futuro, o Pão de ló de Margaride passou a ser uma marca coletiva, com o objetivo final de criação da “Indicação Geográfica Protegida – IGP”. Atualmente o doce constitui-se também como um elo de ligação com o estrangeiro, como forma de levar Portugal até aos emigrantes e durante o Festival do Pão de ló, organizado anualmente em Felgueiras, a Câmara Municipal e a Associação Empresarial do Concelho procuram promover a sua internacionalização.

 

O nosso dia começou com uma visita à fábrica onde precisamente esta história saborosa nasceu. A casa, com fachada de azulejos verdes é discreta, mas esconde um património histórico e gastronómico pouco comum. Com armas reais a decorar a parede da escadaria de madeira da entrada, a casa é um autêntico museu. A cozinha composta com dois fornos a lenha, estava repleta de formas de barro e várias batedeiras antigas. Está aberta a visitas, mas em semanas atarefadas como é o caso dos dias que antecedem a Páscoa, não se pode incomodar o trabalho árduo das mulheres que preparam as formas que seguem para o forno. Guilherme Lickfold é o mais novo de cinco irmãos, herdou a receita de família e assume, atualmente, os comandos da marca histórica.

 

Reza a lenda que foi no início do século XVIII uma mulher, de nome Clara Maria, arrancou com o fabrico de Pão de ló. Após a morte de Clara Maria, foi Antónia Filix que continuou com o fabrico deste apreciado doce, tendo, mais tarde, passado essa tarefa para Leonor Rosa da Silva. Foi Leonor Rosa da Silva que tornou conhecido o Pão de ló de Margaride durante mais de 50 anos de trabalho e o sucesso foi tanto que em 1888 foi atribuída a esta Casa a designação de Fornecedora da Casa Real Portuguesa. A sua foto está bem visível na entrada da casa e o seu nome é sempre ouvido no Festival anual de Pão de Ló. Quando chegámos ao recinto, fomos recebidos por uma recriação histórica que evocava precisamente a lenda do doce e referia o seu nome.

“É preciso namorar a massa”

Quem visitasse o evento este ano, podia provar o pão de ló típico de Felgueiras, mas também o do Japão, além de doces de outros 11 países. No total estiveram presentes 44 expositores e foram vendidos milhares de quilogramas de pão de ló. Só a empresa Pão de Ló Mário Ribeiro, a segunda casa mais antiga do concelho em Margaride, vende quase uma tonelada durante as semanas que antecedem a Páscoa. Em conversa com Cristina Teixeira, a esposa do neto do fundador, procurámos perceber qual era o segredo ou a particularidade da sua marca. “O nosso Pão de ló tem que ser partido com a mão”, diz-nos ao mesmo tempo que nos dá um guardanapo para provar.

 

“Antigamente para se comer uma broa de pão não se usava faca e, no caso do pão de ló, a faca tira-lhe o aspeto rendilhado e o sabor torna-se diferente. Será um detalhe nosso, mas nós achamos que uma fatia de pão de ló comida com uma faca ou comida à mão tem outro sabor”, sublinha. De acordo com Cristina Teixeira, para se fazer um bom pão de ló, “é preciso namorar a massa”. “Não é propriamente uma coisa tão técnica que diga para bater uma hora ou meia hora por exemplo. É preciso olhar para a massa, senti-la e saber quando é que ela está pronta para entrar para o forno”, acrescenta mostrando-nos o maior pão de ló do stand. A empresa, com 33 prémios internacionais, faz um pão de ló de 24 quilos “único no país”, com um metro de diâmetro e em que cada fatia pesa à volta de dois quilos.

 

Por detrás de cada vitrine de produtos estava uma história de família, um segredo peculiar, pequenos detalhes que tornavam todos os doces diferentes, mas igualmente saborosos. Ombelina Lopes assume há cinco anos os comandos da empresa criada pelo avô em 1945 e, apesar de ter estudado engenharia, a sua maior paixão foi sempre o negócio familiar. Cresceu nas feiras, vendendo os doces tradicionais e adotando sempre a mesma política. “A nossa receita é um segredo que não partilhamos com os nossos funcionários, nem eles sabem as quantidades exatas. Quando vamos de férias, fechamos mesmo a empresa”, afirma sorrindo. Os proprietários têm receio que os funcionários partilhem a receita caso abandonem a marca e, por isso, optam por jogar seguro e fechar bem o segredo a sete chaves.

“A diáspora foi aquilo que os nossos antepassados melhor nos deixaram”

Foi precisamente para honrar a tradição, as raízes à terra e ao estrangeiro do Pão de ló que a Câmara Municipal de Felgueiras decidiu avançar com o processo de criação de marca coletiva e “Indicação Geográfica Protegida – IGP” do produto, tendo em vista a comercialização do mesmo em mercados externos. O processo de certificação do Pão de ló de Margaride abrange todo o concelho de Felgueiras, e respeita um conjunto de normas ao nível do respeito pelo receituário tradicional, métodos de fabrico e embalagem e definição dos ingredientes, entre outros aspetos. A candidatura apresentada pela Associação Empresarial de Felgueiras foi preparada ao longo de vários meses para que pudesse reunir todas as exigências que garantissem sua viabilidade, no âmbito dos fundos do Norte 2020.

 

De acordo com o Presidente da Câmara Municipal de Felgueiras, Nuno Fonseca, “a certificação do pão de ló enquanto identidade geográfica protegida representa uma mais valia para todos os produtores, uma segurança para todos aqueles que fazem da sua produção o seu dia a dia e no futuro permitirá que o pão de ló tenha outro tipo de contexto no panorama internacional”, afirmou em entrevista ao Lusojornal. De acordo com o autarca, as Comunidades Portuguesas espalhadas pelo mundo continuam a promover a internacionalização do produto e têm sido um excelente apoio.  “A diáspora foi aquilo que os nossos antepassados melhor nos deixaram. Conseguimos descobrir o mundo, conseguimos deixar gente espalhada por todo o mundo e eles são certamente os nossos melhores embaixadores naquilo que é a promoção dos nossos produtos regionais”.

 

Nuno Fonseca fez questão de convidar um grupo de jornalistas internacionais para o evento e acredita que essa é a melhor forma de promover a qualidade do concelho. “Muitas vezes falar de um produto, mas não o sentir não é a mesma coisa e por isso, eu acho que precisamos de trazer as pessoas cá para que todos possam sentir e certamente que vão com outra ideia. As televisões ainda não conseguem transmitir os aromas. Quando isso acontecer, certamente que teremos outro tipo de propaganda”, acrescentou sorrindo.

 

Em Felgueiras fomos recebidos de braços abertos. Saímos do Festival com o Pão de ló na bagagem e com a certeza que o doce poderá ficar cada vez mais internacional, mas o seu segredo está bem entregue e preservado. Ontem, no dia de Páscoa, e apesar de estar a milhares de quilómetros de Portugal, segui também a tradição e coloquei o Pão de ló de Margaride em cima da mesa. Comi com a mão para “não lhe tirar o aspecto rendilhado” e nem falámos sobre a receita com os belgas para não divulgar qualquer tipo de segredo. Apenas afirmámos e com orgulho que o Pão de ló de Margaride é certificado e Made in Portugal.

 

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