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Hoje fomos informados pelos serviços do Hospital de Gent, na Bélgica, que a dona Manuela faleceu depois de uma dura luta contra o cancro. Em menos de 2 meses, duas Portuguesas que eu conhecia, faleceram sem regressar a Portugal, vítimas daquela terrível doença. Uma é a Dona Manuela que faleceu hoje, outra a Isabel que faleceu em novembro. Não se conheciam, mas ambas representam uma parte da nossa Diáspora, ambas eram Portuguesas de valor, ambas representam o que Portugal tem de melhor: o nosso povo.

Infelizmente, embora não se fale muito, estes casos de Portugueses e Portuguesas que voltaram sem voltar vivos, são demasiado comuns no seio das Comunidades portuguesas a residir no exterior.

Ambas eram pessoas discretas e é com infinita tristeza que vemos ambas partir, regressar a casa mais uma vez, mas desta vez o regresso é sem retorno!

Eu poderia escrever mais um texto sobre os Portugueses de sucesso, e ainda bem que eles existem. Sobre os nossos empresários de sucesso na Diáspora, sobre os altos funcionários, os licenciados, os investigadores, os artistas… temos muito orgulho neles, mas deveríamos ter também muito orgulho nos Portugueses anónimos que existem na nossa Diáspora.

Por isso, hoje não vou escrever sobre duas pessoas conhecidas, mas sobre duas pessoas que todos deveriam conhecer.

Uma nasceu em Tavira, no Algarve, bem lá em baixo, no sul. Outra era uma filha do Minho, era lá de “xhima”, uma verdadeira mulher do norte, uma lavradeira.

Uma viveu em Portugal e emigrou já depois dos 30 para o Reino da Bélgica, já com Portugal na CEE, trabalhou, enfrentou a vida com dificuldades e queria ir morrer em Portugal.

A outra veio de Portugal a salto, ainda no tempo de Salazar. Chegou a França, começou a trabalhar sem falar francês, das 6h00 da manhã até às 20h00 da noite. Fez limpezas em vários sítios, cuidou das crianças dos outros, e deixou os filhos em Portugal, país onde ela sempre esperou regressar, ultimamente já só a pensar em poder morrer em Portugal.

Uma era militante da Secção do PSD Bélgica. A outra sempre votou no PSD, era filha do fundador do PSD lá na aldeia de onde ela partiu.

Uma viveu 23 anos na Bélgica, a outra 20 anos em Portugal e 47 na França. Ambas deixam filhos para trás, filhos que sonharam em vê-las “profitar da retraite” em Portugal, tal como tantos Franceses.

Nenhuma delas conseguiu realizar esse seu último desejo, o tempo não deixou. O tempo é cruel. Para os emigrantes a vida não é fácil, e por vezes nem a morte.

Ambas deixaram os pais, a casa familiar, os amigos e a família. Uma à beira mar, outra numa pequena montanha do norte de Portugal.

Ambas queriam morrer em Portugal, ambas voltaram sem voltar. Nenhuma das duas vai poder nunca mais aproveitar o nosso sol, as casas que construíram, a presença dos seus amigos, na terra dos seus antepassados.

Ambas tinham fé, muita esperança e caridade. Ambas foram sempre boas pessoas, pessoas amigas e de confiança. Ambas deixam saudades em todos os que tiveram a sorte de as conhecer.

A Dona Manuela de Tavira, emigrada na Bélgica há 23 anos, faleceu e não tenho palavras para dizer ao filho e a toda a família, a minha imensa tristeza.

A Isabel faleceu em novembro, depois de festejar 67 anos de vida e 3 anos de luta contra essa terrível doença, que não mata, mas vai matando. Para alguns ela era a “Xhabelinha” do Ti Zé do Romano, que emigrou para França, para ganhar a “bida”. Para outros era a mulher do Armando do Calheiros. Era só mais um dos 1,7 milhões de Portugueses a residir na Europa, fora de Portugal. Era a “emigra” que regressava no mês de setembro, para deixar os filhos na escola e voltar entre lágrimas e saudades a França para fazer pela “bida”.

Para mim ela será sempre muito mais que um número, mais do que uma mera estatística numa folha Excel. Foi e será sempre, a minha Mãe querida. Que Deus lhes dê, a ambas, o eterno descanso.

 

 

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