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Em setembro e outubro passados, quando em Portugal as florestas voltaram a arder, causando novas percas humanas e materiais, os governantes responsáveis ficaram admirados. Então não tinha já terminado oficialmente a época de verão, quando o perigo de incêndios é maior? Se até já tinham dispensado a maior parte dos serviços preventivos e de combate ao fogo por causa disso…

E também logo no início de outubro, quando os responsáveis declararam publicamente que tinha acabado o congelamento de carreiras na Admnistração Pública, ótimo, estupendos governantes, finalmente a superar a crise, esqueceram-se de dizer que afinal o descongelamento era só parcial e não se ia estender a todos os trabalhadores desse setor, tendo informado, dias mais tarde, que os professores e educadores seriam alvo apenas de um mini-descongelamento, pois não lhes seriam contados, para esse efeito, quase dez anos de serviço.

Portanto, para os outros funcionários da Administração Pública, tudo. Para os professores, nada. Ou quase.

Claro que trabalharam, mas não interessa porque, financeiramente, não convém. Além disso, ensinar é uma função nobre, e os indivíduos que exercem uma função nobre não precisam de comer, nem de se vestir, nem de pagar renda de casa e filhos será melhor que não tenham, embora eduquem e ensinem os filhos dos outros. Certamente foi esse o fundamento para tal discriminação.

Os professores são uma espécie de missionários e por isso sacrificam-se. Ou sacrificam-nos, porque, segundo os ditames do Estado, não se pode ter tanta despesa com eles.

Mas, claro, podem-se exigir horas e horas de trabalho extra sem a devida compensação, e deixá-los muitas vezes entregues às faltas de respeito tanto de pais como de alunos, sendo raro terem apoio oficial nesses casos.

E então, pergunta-se, como é que este tipo de coisas pode suceder no século XXI, num país europeu, dito civilizado? Os direitos adquiridos são preteridos, não há direitos intocáveis e os trabalhadores não são ouvidos. E muito menos respeitados.

Porquê? Ora, porque existe o fenómeno da “Bolha de Sabão”, que consiste no seguinte: muitos indivíduos, até aí trabalhadores como quaisquer outros, quando empossados de um cargo político, ficam imediatamente limitados pela dita bolha, mais ou menos opaca, que os impede de ver a realidade e de sentir os problemas alheios, por maioritários que sejam.

Estas bolhas proliferam por todo o país, pululam tanto no palácio de São Bento como no de Belém e também nas instalações dos Ministérios da Educação, das Finanças, da Segurança Social, etc., etc., etc.

E, vogando dentro das suas bolhas, esses políticos vêem os cidadãos à distância e pouco nítidos, assim como os seus problemas, que não os atingem porque estão dentro das bolhas. E há bolhas extremamente resistentes.

Um ótimo exemplo de bolha de sabão super-resistente e quase totalmente opaca pode ser encontrado no Ministério dos Negócios Estrangeiros, envolvendo também a Secretaria de Estado das Comunidades e o Instituto Camões.

Flutuando nas citadas bolhas, os responsáveis por esses organismos observam do alto os seus dependentes, que além do problema da bolha opaca, sofrem ainda com o problema da distância geográfica e dos canais de comunicação que não funcionam, possivelmente também afetados pela dita bolha.

Só assim se pode compreender que tanto no caso dos professores de Língua e Cultura Portuguesas no estrangeiro como naquele dos funcionários consulares não exista qualquer progressão na carreira feita no estrangeiro.

Em qualquer das vertentes, é indiferente já terem trabalhado quinze como vinte e mais anos, pois o salário permanece igual, embora em qualquer outra profissão mais tempo de serviços prestados signifique melhor remuneração.

Exceção para os trabalhadores portugueses no estrangeiro a cargo do Estado Português, que fazem todos os descontos sociais como se residissem em Portugal, não tirando porém daí a mínima vantagem.

Um bom exemplo é o caso do subsídio de refeição dos professores de Português no estrangeiro, a quem é concedido subsídio idêntico ao dos professores em Portugal, uma importância tão reduzida que em alguns países de nível de vida mais alto, como a Suíça, não chega sequer para pagar um café.

Mas se o subsídio é idêntico, então os direitos dos professores também deveriam ser. Mas na verdade não são, pois o MNE já declarou, do alto da sua bolha de sabão, que os professores no estrangeiro têm horários diferentes e fazem um trabalho diferente daquele dos seus colegas em Portugal, por isso não têm direito a usufruir das leis de proteção à maternidade e à família e só se podem candidatar às escolas em Portugal na qualidade de funcionários de categoria inferior.

Claro que o trabalho do professor de Português no estrangeiro é diferente. Nenhum professor em Portugal leciona em 4 ou 5 escolas durante a semana, tendo a seu cargo alunos do 1° ao 12° ano de escolaridade.

Utilizar tal tipo de argumentos para manter os professores do EPE em plano de inferioridade é uma falta de respeito pelo trabalho dos mesmos.

Um país que queira ter futuro deveria tratar com respeito e dignidade aquelas e aqueles que ensinam os futuros cidadãos, devendo a profissão docente ser considerada estratégica para o progresso e desenvolvimento do país, tanto dentro das suas fronteiras como fora delas.

Há quem diga que ensinar é uma das mais belas atividades humanas. Mas também todos sabem que palavras bonitas não pagam contas nem são suficientes para demonstrar o reconhecimento devido pelo trabalho exercido.

Atualmente os professores, tanto em Portugal como no estrangeiro, são desrespeitados, estando totalmente desprotegidos nas suas carreiras.

E o professor no estrangeiro nem sequer tem carreira, pois enquanto em Portugal um professor com três anos de contratos sucessivos vincula e fica em situação segura, um professor no estrangeiro que fique sem alunos – e cada vez há menos – vai para o desemprego, independentemente do número de anos que tenha trabalhado.

Por estas razões, muitos candidatos a emprego tanto nos Consulados como no Ensino no estrangeiro, acabam por não aceitar a colocação devido às péssimas condições ou abandonar a mesma após curto período de exercício.

Tal estado de coisas não pode ser bom para as Comunidades Portuguesas. Mas a bolha de sabão mantém-se e a situação perdura, infelizmente, pois não está prevista falta de sabão.

Mas, sejam elas opacas ou irisadas, as bolhas de sabão têm uma caraterística comum.Mais tarde ou mais cedo, acabam sempre por rebentar.

 

 

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