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Eis que, após o famoso “Brexit”, o termo “populismo” caído em desuso (pelo menos no chamado “mundo ocidental”) há longo tempo, renasce das cinzas, com acutilância, para caracterizar certo tipo de comportamento político um tanto confuso.

Com a eleição de Donald Trump para a presidência dos EUA, reacendeu-se de novo com mais vigor ainda, o termo em questão, levando certos observadores a salientarem que, a vitória deste, foi assente no populismo exacerbado que o caracteriza.

O termo populismo, um dos mais controversos da literatura política, possui várias conotações. Assim, foi usado também para designar certos movimentos artísticos e literários sendo, porém, o seu âmbito principal conotado com a política. No âmbito literário entende-se por populismo a tendência que idealizava o mundo popular como detentor de valores positivos.

O termo em questão, é geralmente utilizado para designar um conjunto de práticas políticas que consiste no estabelecimento de uma relação direta entre as massas e uma liderança política ou um líder carismático sem a mediação de instituições políticas representativas, como os Partidos, ou até mesmo contra elas, e geralmente empregando uma retórica que apela para figuras difusas. Para ser eleito e governar, o líder populista – ator político que faz uso de uma linguagem pouco ortodoxa e agressiva e que demoniza as elites ao mesmo tempo que exalta o “povo” – procura estabelecer um vínculo emocional com este. Isso implica um sistema de políticas ou métodos para o aliciamento das classes sociais com menor poder de compra, além da classe média urbana, como forma de angariar votos e prestígio, através da simpatia daquelas.

Em sociologia política, o populismo foi definido como “uma relação direta, não tradicional, entre as massas e o leader, que fornece a este último seja a lealdade, seja a sustentação na sua busca de poder, e isto, em função da capacidade carismática do mesmo leader de mobilizar a esperança e a confiança das massas na rápida realização das suas expectativas”.

Diante desta descrição clarividente, ter-se-á de questionar qual a cambiante do populismo: será de direita, de esquerda ou ambos já se serviram do populismo como arma demagógica?

De acordo com a bibliografia consultada, poder-se-á constatar que tem servido todos os quadrantes políticos, embora nos últimos tempos tenha sido mais catalogado como sendo uma praxis de direita.

Perante a onda de classificação de “populismo” e da demagogia que normalmente o acompanha tecem-se as mais variadas conceções. Assim, neste novo quadro da condução política nos tempos mais recentes, as expetativas são enormes para uns, enquanto outros atónitos não vislumbram nada de positivo. As mutações que poderão vir a ocorrer, poderão por em causa um conjunto de valores-padrão que se julgavam trave mestra do nosso quadro civilizacional. Não há dúvida que a situação mundial está confusa e talvez provoque apreensão sobre o futuro, mas devemos possuir espírito crítico para rejeitar tudo e algo mais que alguns procurarão catalogar como populismo só porque não corresponde ao status quo, aos poderes reinantes, ao “establishement” perdulário. Aliás, parece ter sido o afastamento das elites políticas face a importantes camadas da população a ignição que despoletou esta situação/catarse ideológica.

Assim, com a saída (votada) do Reino Unido da União Europeia, põe-se termo a uma vivência comum, delapidando desta forma, graças a um preconceito ideológico falso, o que Winston Churchill tanto tinha ansiado. Assente em mentira, em demagogia e em ameaças veladas, sobretudo contra o estrangeiro (acusado de todos os males) esta saída terá certamente elevadas repercussões nos dois lados do canal.

Que fazer, perguntar-se-á, quando o receio assola, quando correntes isolacionistas aparecem à superfície de uma forma tonitruante, quando as expetativas há muito criadas se tornam infundadas?

Parece ser o momento adequado para se repensar a política e o modo de fazer política. É altura para que o sistema político existente entenda de uma vez por todas que as diversas componentes do povo/eleitorado têm de ser ouvidas e incluídas nas lideranças. Para obstar a que ocorra uma hecatombe de populismo demagógico, deseja-se um sistema político mais inclusivo, não profissionalizado e menos carreirista, liderado por bons políticos que ainda existem, mas com o contributo de personalidades da sociedade civil e, não como é o caso do nosso país de gerações de jotas carreiristas. Estudos levados a efeito pela Organização para o Desenvolvimento Económico (OCDE) entre 2012-2014 assinalam que em Portugal, 41% dos Portugueses não estão interessados em política e à medida que a idade desce, o desinteresse pela política aumenta.

Os cidadãos deixaram de acreditar nos Partidos, na sua capacidade de lhes resolver os problemas concretos. Há um alheamento das elites políticas resultado de uma insatisfação com as opções tomadas e uma descrença com as políticas levadas a efeito.

Num anterior artigo publicado no LusoJornal, em novembro de 2015, cujo título era “O Circo Político”, alertava já de uma maneira premonitória, os estimados leitores para: “O espetáculo político com o qual amiúde as populações são confrontadas, deixa estarrecido mais do que um”. E mais abaixo: “Financiamento oculto de Partidos, financiamento ilegal de campanhas eleitorais, mascarar, mentir, esconder, ser hoje a favor de uma coisa e amanhã do seu contrário são fatores, que entre outros, ocorrem para o descrédito da política”.

Há porém certos senhores que se julgam serem detentores da verdade absoluta, ficarem atónitos com o populismo.

Não haverá por aí espelhos?

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