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Documentário “Os Herdeiros da Batalha de la Lys” foi apresentado na Livraria ‘La Petite Portugaise’ em Bruxelas

Todos os anos, em abril, o Cemitério Militar de Richebourg e o Monumento aos Mortos de La Couture recebem uma  homenagem aos militares portugueses que participaram na I Guerra Mundial em França no quadro do aniversário da Batalha de La Lys. As cerimónias são organizadas pelas autoridades portuguesas com a estreita colaboração das autoridades francesas e reúnem todos os anos vários jornalistas. Carlos Pereira é um participante assíduo e começou a filmar as comemorações anuais da fatídica Batalha de La Lys para reportagens difundidas na RTP e na SIC Internacional em 2006. O jornalista deixou-se cativar pelo tema, guiado por Afonso Maia, um especialista da Grande Guerra e neto de um soldado do CEP e decidiu condensar 12 anos de reportagens num grande documentário. O filme foi exibido este fim-de-semana em Bruxelas na Livraria La Petite Portugaise.

 

O jornalista passou a infância em Murça a ouvir histórias do Soldado Milhões e apesar de não ter familiares que foram para as trincheiras da Flandres francesa, sempre se interessou pelo tema. Aníbal Augusto Milhais foi um soldado raso que combateu na Primeira Guerra Mundial e ganhou fama quando se bateu sozinho contra os alemães para ajudar à retirada das forças aliadas. Foi em abril de 1918, durante a Batalha de La Lys (Flandres), e os seus actos de bravura valeram-lhe a mais alta condecoração militar nacional, a Ordem de Torre e Espada. Na sua terra natal, no concelho de Murça, distrito de Vila Real, todos conhecem a história do jovem analfabeto e pobre, um franzino com pouco mais de metro e meio de altura, que desobedeceu às ordens de retirada e ficou para trás, sozinho e abrigado numa trincheira, a disparar contra o inimigo. Milhais acabou por ficar conhecido como o soldado Milhões, um epíteto que nasceu com o elogio do seu comandante, Ferreira do Amaral: “Tu és Milhais, mas vales milhões”. Depois de morrer aos 75 anos em Valongo, a aldeia que adoptou o nome de Milhais em sua homenagem, que deu ainda o nome “Herói Milhões” a uma rua, quer agora recuperar a casa onde viveu. No documentário Leonilde Milhões, filha do Soldado Milhões, que também já faleceu, recorda que “o pai recusou a metralhadora que lhe queriam dar quando regressou a Portugal porque essa ‘menina’ já a tinha aturado muito tempo”. Leonilde conta que ele tinha apenas uma pensão de guerra de 15 escudos, apesar do estatuto de herói. “Ele foi pedir para o filho não ir para o serviço militar e perguntaram-lhe se ele não tinha vergonha, ele que andou na guerra. Ele disse que necessitava do filho para trabalhar no campo, porque só tinha 15 escudos por mês”, sublinhou durante a entrevista.

A Batalha de La Lys foi a maior derrota militar portuguesa depois de Alcácer Quibir. No dia 9 de abril de 1918, enquanto faziam um render de tropas, os militares portugueses comandados pelas forças britânicas, foram surpreendidos por um ataque alemão que acabaria por conquistar La Lys e depois as terras altas da Flandres, tomando Ypres e o monte Kemmel já na Bélgica. Esta data nunca é esquecida em Richebourg e La Couture. A recordar a presença portuguesa na Primeira Guerra Mundial em França há inclusive o monumento de La Couture do escultor português António Teixeira Lopes, inaugurado a 10 de novembro de 1928 e, todos os anos, vários filhos dos soldados portugueses que participaram na Batalha, viajam até esta localidade para lhes prestarem uma homenagem.

Os herdeiros da Batalha de La Lys são os principais protagonistas do documentário do realizador Carlos Pereira. Outra filha de um soldado luso a intervir no filme é Felícia de Assunção Pailleux, hoje com 93 anos, e que nas últimas quatro décadas tem levado a bandeira de Portugal para as cerimónias anuais no cemitério militar português de Richebourg e no monumento aos mortos em La Couture, em França. Recentemente Felícia foi mesmo condecorada pelo Presidente português Marcelo Rebelo de Sousa com a Medalha da Defesa Nacional.

Um importante testemunho do documentário é o de João Marques, Presidente da União Franco-Portuguesa de Richebourg desde 1990. Todos os anos ajuda a preparar as cerimónias anuais evocativas da histórica Batalha de La Lys e faz a articulação com as autoridades francesas. Imigrante em França há mais de 40 anos e Presidente da Associação há 27, João Marques gostaria de dar continuidade a estas iniciativas através das gerações mais jovens e não quer deixar esta data cair no esquecimento. O Cemitério Militar Português, sob jurisdição do Estado português está preservado, tem além da bandeira de Portugal, várias referências simbólicas, como o escudo nacional, a cruz latina ou um altar de pedra onde estão inscritas as províncias portuguesas – Algarve, Alentejo, Beira Baixa, Beira Alta, Minho, Douro e Trás-os-Montes.

No documentário, há ainda entrevistas ao historiador e antigo Ministro da Defesa Nuno Severiano Teixeira, ao ex-Ministro da Defesa Azeredo Lopes, ao jornalista e escritor José Rodrigues dos Santos, ao historiador Georges Viaud, ao Presidente da Liga dos Combatentes e Tenente-general Joaquim Chito Rodrigues, entre muitas outras personalidades. O filme – que foi estreado a 5 de novembro, numa projeção na Université Populaire d’Histoire de Pessac (Unipop Histoire), perto de Bordeaux terá novas projecções brevemente em França. Já a próxima homenagem aos combatentes portugueses da Batalha de la Lys vai realizar-se no próximo sábado, dia 13 de abril, no Cemitério Militar de Richebourg e no Monumento de La Couture.

 

 

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