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“Espero que o projecto político de voto electrónico deixe de ser piloto e passe a ser uma prática normal”

Carlos Zorrinho foi eleito eurodeputado em 2014 e já percorre os corredores da União Europeia há quatro anos. Durante o seu percurso foi coordenador do Plano Tecnológico, integrou a Comissão da Indústria, da Investigação e da Energia, destacando-se sobretudo em 2017 quando foi eleito Deputado do Ano na categoria Mercado Digital 2017 com um galardão atribuído pela publicação “The Parliament Magazine”. A poucas semanas das eleições europeias, o Lusojornal esteve à conversa com Carlos Zorrinho sobre o projecto europeu. Numa altura em que a escalada da extrema direita é cada vez mais evidente na Europa e o discurso anti-imigração o mais ouvido, Carlos Zorrinho apela ao voto, lembra os princípios humanistas da União Europeia e afirma que a Europa precisa de estar mais perto dos seus cidadãos.

 

Lusojornal : Nas eleições europeias de 2014 foi eleito deputado para o Parlamento Europeu. Já percorre há quatro anos os corredores da União Europeia. Ainda se sente europeísta como quando apresentou a sua candidatura para este projeto?

Carlos Zorrinho : Sinto-me igualmente europeísta, mas ainda mais convicto da importância da União Europeia e ainda mais convicto de que os grandes problemas e desafios que se colocam às comunidades locais, às regiões e aos países que integram a União Europeia, encontram uma melhor solução na parceria estratégica da União. Eu acho que quanto melhor a União Europeia se conseguir afirmar na geopolítica global, mais capacidade terá também de ser uma parte da solução para os problemas nacionais e locais e de globalmente ficarmos todos a ganhar.

Nós precisamos de uma Europa muito mais próxima dos cidadãos

Lusojornal : Recentemente inaugurou na Casa de Portugal em Paris um ciclo de Conferências com o programa Europa Minha. Como descreve a Europa que temos hoje?

Carlos Zorrinho : É uma Europa que está a ser atacada violentamente por todos aqueles que dentro dela ou fora dela não querem que os princípios humanistas, solidários que formam esta parceria e que permitiram que tenhamos vivido 60 anos de paz, 60 anos de liberdade de expressão, que tivéssemos construído, ainda que de uma forma muito incompleta, uma rede que facilita muito o acesso à educação, o acesso aos cuidados sociais, todo um projecto baseado nas pessoas e no sentido humanista, seja o inspirador da nova globalização. Há muita gente que não quer que a União Europeia inspire o mundo do futuro e querem, pelo contrário, que a União Europeia imploda e seja capturada por uma visão do interesse da lei do mais forte à escala global. A Europa está a ser violentamente atacada e o que eu sinto é que falta uma tomada de consciência forte em relação a esta realidade. Algumas pessoas, no seu dia a dia, sentem que alguns dos seus anseios não têm as respostas necessárias por parte da União Europeia e como é normal agarram-se um pouco às circunstâncias imediatas e, por isso, nós precisamos de uma Europa muito mais próxima dos cidadãos. Nós precisamos por um lado que os cidadãos estejam mais próximos da Europa, mas para isso também precisamos que a Europa e os seus governos estejam muito mais próximos dos seus cidadãos. Aquilo que nós adquirimos é verdadeiramente extraordinário, deve ser inspirador para o mundo e não nos devemos deixar destruir por quem não quer que o mundo do futuro seja o mundo humanista, apresentável e com projectos democráticos baseados nos direitos humanos.

Dizeram aos ingleses que saindo da União Europeia tudo estava resolvido e os ingleses depois perceberam que os grandes problemas que têm são problemas do Reino Unido

Lusojornal : Como referiu, os últimos tempos têm sido precisamente marcados por inúmeras manifestações anti-imigração na Europa, pela escalada da extrema direita e ainda há bem pouco tempo se realizou em Bruxelas uma grande manifestação que ilustrava isso mesmo. Como encara estes movimentos? É também por isso que tem apelado ainda mais ao voto para estas eleições europeias?

Carlos Zorrinho : É óbvio que sim. Os populistas têm uma forma de agir muito clara. Não são a favor de nada, são contra tudo e encontraram na União Europeia uma espécie de bode expiatório e dizem às pessoas que se têm um problema de emprego, com a sociedade ou se têm um problema consigo próprio, a culpa é da União Europeia. Esse tipo de estratégia e de forma de agir não é absolutamente nada construtivo porque no momento seguinte, esses mesmos populistas que acedem ao poder dessa forma, depois não têm soluções nem respostas alternativas. Obviamente que nos preocupa muito a ascenção do populismo que é feita pela negativa e o exemplo do Brexit é muito marcante. Dizeram aos ingleses que saindo da União Europeia tudo estava resolvido e os ingleses depois perceberam que os grandes problemas que têm são problemas do Reino Unido e são problemas que eles têm que resolver no seu país, dentro ou fora da União Europeia. Na minha opinião, eu acho que estando na União Europeia, eles resolvem melhor os problemas que têm no Reino Unido e é isso que eu acho que precisamos fundamentalmente de demonstrar. Por outro lado, as migrações é um excelente exemplo de outro problema que temos na União Europeia. Obviamente que vieram muitos refugiados e imigrantes para a Europa, mas não é de maneira nenhuma a quantidade que muitas vezes é falada. Muitas vezes as regiões e os países anti-imigração não têm praticamente imigrantes e também é preciso ser racional e lúcido. A União Europeia é um espaço de humanismo, deve receber com grande humanismo os refugiados, apoiar as regiões de onde eles provêm para que as pessoas não tenham de sair das suas regiões, deve apoiar também os refugiados para que eles possam ser bem acolhidos e quando possível regressarem às suas terras porque foram forçados a abandoná-las. Por outro lado ainda no que toca às migrações, é preciso notar que a Europa tem um saldo demográfico muito baixo, precisa de gente que queira trabalhar connosco, que queira abraçar o projecto europeu e é preciso ter presente essa visão também.

 

Lusojornal : Ainda em 2018 ouvimos o primeiro Ministro António Costa falar sobre as desigualdades na Europa em termos de género. Uma mulher ainda ganha menos do que um homem por exemplo em muitas situações. Quais foram as maiores disparidades que encontrou no Parlamento Europeu desde que iniciou as suas funções em Bruxelas?

Carlos Zorrinho : Neste mandato o Parlamento Europeu propôs muitas medidas para combater as desigualdades em geral e as desigualdades de género em particular. Eu acho que a Europa tem feito um progresso importante durante os últimos cinco anos nesse sentido. Do ponto de vista político, o Parlamento Europeu é cada vez mais paritário e procura-se respeitar em diferentes instâncias a igualdade de género. No meu ponto de vista, o que é importante é termos presente que a desigualdade, seja a desigualdade de género, de rendimentos, no acesso aos cuidados de saúde, no acesso à educação ou à cultura, a desigualdade é sempre negativa para todos e não apenas para aqueles que são as vítimas da desigualdade. Portugal tem-se batido muito, incluindo o senhor Ministro António Costa tem-se batido muito pelo princípio da convergência, que no fundo conjuga competitividade e coesão. Nós temos muita tendência a distinguir na União Europeia os países com maior competitividade e os países que estão à frente, mas é verdade é que o desenvolvimento dos países que estão menos desenvolvidos neste momento ajuda fortemente os mercados, a dinâmica e a segurança dos países mais desenvolvidos e o progresso dos países mais desenvolvidos deve ajudar aqueles que estão com mais dificuldades. A convergência é um jogo pela positiva e o mesmo acontece na convergência de direitos entre homens e mulheres.

 

Lusojornal : Também em janeiro apoiou uma iniciativa levada a cabo por lusodescendentes em França de promoção da Língua Portuguesa. Pode-nos falar sobre esta campanha?

Carlos Zorrinho : Eu quis apoiar, em primeiro lugar, pelo enorme orgulho que eu tenho em ser português. Eu sou obviamente um europeu, um cidadão do mundo,  mas tenho um enorme orgulho em ser português. Por outro lado, a língua define sempre uma identidade, aliás eu fui o principal organizador do grupo de interesse da Língua Portuguesa no Parlamento Europeu, a Língua Portuguesa é falada em todos os continentes, por muita gente no mundo inteiro e, por isso, estabelece uma forma de estar, uma forma de pensar de um país que foi ao longo da história uma referência e de um país que foi também durante os últimos cinco anos um exemplo porque foi a pensar em português que nós conseguimos demonstrar em Portugal que havia um caminho mais sustentável, de crescimento, de respeito pelos direitos das pessoas, de rigor e não de austeridade. Por outro lado, a minha pátria é a Língua Portuguesa, Portugal é global, eu orgulho-me muito disso e acho que isso é uma das nossas grandes vantagens. Muitas vezes perguntam se Portugal deve fazer uma rede essencialmente com a União Europeia, com a América Latina,  com o Eixo Atlântico ou com África, mas eu acho que a nossa grande mais valia é que nós podemos e foi assim que nos afirmámos ao longo da nossa história, nós podemos ser um elemento fundamental nessas redes todas porque nós temos uma grande capacidade de nos relacionarmos. Não é por acaso que o Presidente das Nações Unidas é português. Nós temos essa identidade própria de um povo global, de um povo que se relaciona e é graças a essa soma que nós temos afirmado no exterior.

Eu acho que uma parte da abstenção nas Comunidades, mas uma parte da abstenção também no território português se deve ao facto das pessoas hoje terem muito maior mobilidade e, portanto, estão inscritas num determinado sítio, mas podem estar a trabalhar temporariamente noutro local diferente e não conseguem votar por isso

Lusojornal : Nas próximas eleições europeias, em Maio de 2019, vai realizar-se em Portugal mais um projeto piloto de voto eletrónico. Também acredita que esta será a melhor forma de votar e que pode ajudar as Comunidades Portuguesas a exercer o seu direito de voto nos países de acolhimento?

Carlos Zorrinho : Há muitos anos que eu defendo o voto eletrónico presencial. Eu fui durante alguns anos coordenador do Plano Tecnológico e fizemos muitas coisas extraordinárias na simplificação administrativa, na simplificação para obter documentos e facilitar a administração pública, mas não consegui vencer essa batalha. Eu acho que uma parte da abstenção nas Comunidades, mas também uma parte da abstenção também no território português se deve ao facto das pessoas hoje terem muito maior mobilidade e, portanto, estão inscritas num determinado sítio, mas podem estar a trabalhar temporariamente noutro local diferente e não conseguem votar por isso. Como lhe digo eu defendo o voto eletrónico presencial, não o voto em que não se pode verificar se é exactamente a própria pessoa que exerce esse direito. Mas, no que toca ao voto eletrónico presencial, ainda bem que há um projecto piloto, ainda bem que é no meu círculo eleitoral que é no distrito de Évora e espero que rapidamente deixe de ser piloto para ser uma prática normal.

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