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Uma festa que alenta e celebra a vida!

Os primeiros sinais chegam-nos da própria natureza, que se apresenta multifacetada na variedade das cores, apontando para um certo despojamento, num morrer pausado e sereno; no horizonte deste processo outonal, está a vida que renasce!

É a imagem de um ciclo que expressa, com evidente beleza, o tempo da missão cumprida; depois de ter produzido em abundância os frutos da colheita, a Natureza recolhe-se para uma nova criação.

Um tempo cheio de magia que nos recorda temas místicos e bíblicos, clima que nos impele para a transcendência!

Somos por isso, confrontados, mais de perto, com os dois extremos que se tocam e que de certa forma balizam a nossa existência; a morte é inexorável, por muito que a ciência evolua no prolongamento da vida…

Esta sentida homenagem que prestamos aos que nos precederam, deve provocar em nós, o desejo sincero de considerar os vivos, aqueles que connosco fazem história, tantas vezes lado a lado!

Deve ainda, ajudar-nos a olhar para o Infinito, com serenidade e confiança, numa festa que exorta à celebração da Vida.

 

“Homenageamos todos os que um dia estiveram entre nós, mas nunca partiram dos nossos corações”

Acontece todos os anos, de forma mais intensa, mais celebrativa e centrada. Não é uma repetição, daquilo que já passou, mas antes a renovação de propósitos e de comunhão, relativamente aos que nos precederam na fé. Por eles, mas sobretudo por nós que prosseguimos este turbulento caminhar e acritude própria da nossa condição humana.

Desta vez e este ano com maior veemência em atenção às vítimas dos violentos incêndios que assolaram o país. Vergados que ficamos perante uma crueldade sem rosto, autêntico terrorismo sem nome! Tresloucada violação da natureza na sua essência vegetal e animal! Ignóbeis atitudes a dar trunfos a uma cega banalização da morte, em proporção com o lúgubre desprezo pela vida.

Ficamos indignados e apreensivos pelo eivado de violência e de maldade que anda por aí; inqualificável e brutal destruição que ultrapassa todos os limites! Os fortes tornam-se débeis, os poderosos, enfraquecidos, os sábios, boquiabertos; afinal, é tudo tão frágil sobre a terra!

O que vai de sofrimento pelo mundo é dramático e tem o cruel sabor do mal sobre o bem! Vigora o orgulho despótico dos que têm, o ódio e as armas… E com estas esmagam multidões.

De facto, a vida é sagrada e deve por isso ser respeitada, protegida, honrada… Enquanto uns lutam contra a doença e outros males físicos, tantos outros investem-se em destruir esse dom maravilhoso que é a vida, optando por uma cultura da morte cada vez mais acentuada e precisa, ameaçando o futuro dos povos e de outros seres vivos sujeitos a orquestradas barbaridades!

O mundo escolheu o lado da morte e as suas trevas ameaçam a vida humana com fatores explosivos de extrema brutalidade; há tanta gente a morrer antes da “sua hora”, ou nem sequer podem começar a viver plenamente!

Na sua tradicional romagem aos cemitérios, os Portugueses carregam com as suas apreensões próprias, ao que acresce o drama infernal dos incêndios e suas consequências.

Este não é o espaço para se culpabilizar, para acusar ou repreender. Já nos basta o excessivo número de analistas, de comentadores e peritos, que conseguem atrapalhar mais que esclarecer! Aqui convém deixar o coração render-se à misericórdia divina… O mistério, esse subsiste. Na devoção e na fé que ainda nos resta encontraremos a força para vencer medos, ultrapassar obstáculos e criar a novidade da reconsideração dos atos e/ou omissões.

Todos nós, que pisamos o mesmo chão, respiramos o mesmo ar, fruímos da mesma intensidade do sol, recebemos de graça a mesma chuva, somos enaltecidos pelas dádivas da terra…

Todos nós, multidão em marcha, temos também o dever de honrar, através do exemplo e do compromisso, todas as causas e compleições que valorizam e preservam a vida! Longe, como perto de nós, encontram-se degradantes situações, formas dissimuladas de atentado à existência! Golpeia e amedronta, verificar que, por razões sem qualquer razão, por trivialidades, se cortam relações de amizade e de estima. Num abrupto afastamento que condiciona, que interpela e dilacera qualquer coração sensato!

Quem não conhece o sabor amargo de uma separação, na perda de um amigo ou ente/querido? E porque razões ou sob que pretextos se provocam tantas rupturas nas relações entre uns e outros? E as oportunidades de viver em paz que se perdem? E os momentos únicos, da (con)vivência social/familiar? Porquê tanta gente vergada a esse sofrimento, incúria e perversidade? De que servem depois as lágrimas, as palavras e/ou os gestos, esses sinais exteriores de tristeza e condolência, quando em vida nos alienamos da prática dos bons modos?

Parecendo que não, continua a haver gente subjugada ao amargo critério da irreverência e da teimosia. Sem tempo nem lugar para dar meia volta, pensar para emendar! Fazem escolhas, idealizam disposições, acossam e desgastam energias, adotam incongruentes posturas, constroem sobre a areia, cumulam atos que carcomem e impedem, por isso, o dom da felicidade! Mas são adeptos de adornos e outros apetrechos; numa hipócrita exposição dos sentimentos ocasionais!

De que poderão servir as flores e as preces pelos mortos, se em vida nos alheamos? E por onde andou a honestidade e coerência?

Nada de ilusões: a homenagem aos nossos familiares e amigos – nesta histórica e social comemoração – só tem sentido se estivermos de bem connosco mesmos e com o nosso semelhante! Se houver tolerância, compreensão e paz.

Claro que é possível transmitir uma boa imagem, quiçá piedosa e compadecida. Tentativa forçada de impressionar a opinião pública… O pior mesmo, é embustear a própria consciência; esforço esse inexequível, tentativa falhada!

Que este tempo, propício à reflexão e ao recolhimento, nos ajude a encontrar caminhos novos de quietação, de reconciliação e de paz!

 

 

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