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Eugénio Boléo foi militar, aliás foi Fuzileiro Espesial e aos 26 anos comandava um destacamento em Angola, no coração da Guerra colonial. Foi aí que decidiu mudar de vida e integrou uma ordem religiosa: os Dominicanos.

Foi, durante 13 anos, o Pároco da Igreja de Sainte Croix, na Place Flagey. Por isso, conhece, como poucos, a Comunidade portuguesa em Bruxelas, ou melhor, as Comunidades portuguesas.

Falar com Frei Eugénio é aprender um pouco mais, quem são e como vivem os Portugueses radicados neste país. Mas aproveitámos também para falar de terrorismo. Em suma: porque razão se mata hoje, em nome de Deus?

 

Como chegou a Bruxelas?

Foi em 2001, no dia de Natal. 14 frades dominicanos entravam num convento europeu perto do ‘Parc du Cinquentenaire’ e foi aí que começou a minha vinda como fundador dessa Comunidade internacional.

 

Era o único português?

Éramos 7 países diferentes e eu era o único Português. Uns meses depois, o Bispo de Bruxelas que na altura era o Cardeal Danneels, nomeou-me Pároco, Responsável pastoral desta Comunidade católica que se junta na igreja Ste Croix, na conhecida Place Flagey. Assumi estas responsabilidades até aos 75 anos, idade limite na Bélgica para exercer enquanto Pároco. Agora continuo a minha vida de pregador, mas sem responsabilidade direta.

 

Põe a hipótese de regressar a Portugal?

Como eu sou de uma ordem internacional, tanto posso estar aqui como no dia seguinte posso estar noutro país. Estou aqui, gosto muito desta cidade, penso que ainda sou útil, mas vou muitas vezes a Portugal, nomeadamente em serviço, e talvez um dia regresse definitivamente. Não quero é voltar de cadeira de rodas… (risos)

 

Como caracteriza esta Comunidade portuguesa em Bruxelas?

Efetivamente aqui há uma especificidade. Como há a União Europeia, existem Portugueses que são funcionários desde 1985 – ainda são alguns milhares – que estão no Conselho, na Comissão, no Parlamento e também aqueles quadros que vêm para empresas e que são do mesmo meio. E depois temos aqueles a que chamamos trabalhadores, muitos Portugueses que vêm para a construção civil e também para o comércio e restauração e as mulheres essencialmente para a limpeza, os trabalhos domésticos ou porteiras. São dois mundos diferentes em vários pormenores, que falam a mesma língua.

 

LusoJornal / Carlos Pereira

 

Esses dois mundos encontram-se?

Nem nos aviões se encontram muito, porque uns andam em aviões mais baratos e outros em viagens pagas pelas instituições. Acabam por ser dois mundos culturais que se vão encontrando na rua, ou nos restaurantes ou quando alguém é empregado de outro. Mas alguns como eu, tentámos criar pontes entre as duas Comunidades, porque penso que é esse o projeto de Jesus.

 

E criaram-se?

Logo no início foi feito um acordo com a associação cultural Emaus e muitos não vão à igreja, mas vão por outras atividades. Naturalmente se criam laços e pontes entre uns e outros. E depois há outra coisa que as pessoas nem imaginam. Bruxelas é do tamanho de Lisboa, ora, no último ano em que eu estava na Catequese, muitas crianças e jovens vinham de 31 Comunas, ou seja Freguesias. Bruxelas tem 19 Comunas, quer dizer que vinham de muito longe. É uma dispersão enorme. É como se crianças do Estoril ou de Vila Franca de Xira viessem à Catequese a Lisboa. Há famílias que fazem 15, 20, 25 km para vir aqui e se não houver elementos congregadores, as pessoas não vão fazer uma distância tão grande e muitas vezes propunhamos aos miúdos de ir às aulas de Português, um bom elemento para ligar as pessoas umas às outras.

 

Estas duas Comunidades integram-se da mesma forma na sociedade belga?

Os funcionários que vivem cá, estão integrados no seu nível, têm um nível cultural que lhes permite ter amigos e estar num determinado meio de pessoas. Estão integrados. Até do ponto de vista católico. Os poucos que são católicos praticantes – que como sabe é uma percentagem mínima nas grandes cidades – escolhem qualquer comunidade e não necessáriamente uma comunidade portuguesa. Quanto aos outros, têm um tipo de integração diferente, uns na vida profissional, outros na vida relacional, mas com uma tónica mais acentuada das regiões ou das origens das pessoas de Portugal.

 

Quer dizer que os do norte se encontram com os do norte…?

Não se pode dizer bem isso, porque por exemplo no futebol, juntam-se os do norte e os do sul num mesmo clube. A maioria dos trabalhadores são rurais enquanto os funcionários na maioria vêm de Lisboa ou do Porto, é um mundo que vê Portugal de maneira diferente. Isto pode até criar problemas e desentendimentos.

 

Vir à missa ajuda a manter a língua portuguesa em casa?

Os pais receberam algo e querem que os filhos continuem, mas a língua portuguesa é diferente e faz parte da cultura. É uma questão fundamental. A maioria das pessoas conhecem mal Portugal, conhecem apenas a terra dos pais e de uma praia ou outra onde costumam ir e têm pouco conhecimento da língua portuguesa. Segundo o trabalho que fiz com a Embaixada, apesar do número de alunos inscritos no ensino do Português, nem 10% dos alunos frequentam o ensino português. Contudo um novo sinal é que os mais pequenos têm frequentado o pré-primário e isso é encorajante, é um sinal novo, vamos ver se continua, vai depender também dos apoios.

 

A ligação a Portugal também se faz pela cidadania. Como tem agido a igreja nesta área?

Como há a separação entre a Igreja e o Estado, quando eu cheguei cá, a Comunidade católica não tinha nada a ver com associações, até que a Embaixada começou a ver que se há sítio onde passam Portugueses e onde se podem fazer passar mensagens, informações,… era aqui. Então passamos a ser considerados como uma associação e o diálogo com a Embaixada e o Consulado foi reforçado porque viam todo o interesse.

 

No entanto não tem havido muita participação cívica. É uma evidência. Como se poderia alterar esta situação?

Temos que aprender a participar e não apenas passivamente receber. Tem de haver uma educação para a participação. Tem de ser um trabalho muito maior, de pessoa a pessoa. Isto não pode ser só por internet. Para eu convencer uma pessoa a ir votar, a maioria não quer votar, acha que os políticos são todos iguais, que a política é uma malandrice e não vale a pena. Eu lembro-me de uma senhora que andou porta a porta até que conseguiu que as pessoas votassem. Seria necessário congregar mais esforços para convencer as pessoas a participar. Não só aqui, mas nas associações também. É necessário haver educação para participar. Tudo o que puderem fazer neste sentido, acho que é fundamental.

 

Mas a missa em Português ainda se justifica hoje?

Em Bruxelas a situação é única: há 44 comunidades católicas linguísticas e culturais diferentes. Quando se está mais integrado, é mais fácil, os poucos que são praticantes, integram-se em qualquer Paróquia. Agora, a maioria não tem essa integração cultural, logo, na parte religiosa a sensibilidade é diferente. Por exemplo, a missa brasileira é diferente, com ritmos diferentes. Parece de outro mundo. Mesmo entre os francófonos, se são Africanos ou se são Belgas, ou Franceses, é diferente. A parte cultural é diferente. Vivi em Paris, numa altura onde havia várias comunidades católicas, mas que foram desaparecendo, porque os Franceses pensavam que os Portugueses se iam integrar, mas não aconteceu e deixaram de praticar a religião. Porque a questão não era a língua, era culturalmente.

 

Se eu aprender a rezar numa língua, vou ter mais dificuldades em rezar noutra, não?

Não é difícil se alguém me ensinar a rezar e não a dizer orações. Desde pequenino aprendi a rezar em casa e só com 27 anos, quando fui para os Dominicanos, é que aprendi certas coisas, por isso tanto rezo em português, como em francês ou inglês até espanhol, é uma questão de hábito. Rezo em qualquer língua porque estou treinado para isso. Passa-se da mesma forma com as palavras de amor. E até o mesmo se passa com o humor, as anedoras. Consoante as línguas o humor é diferente. Quero dizer com isto que cada um de nós pode dialogar com Deus numa outra língua, se for educado para isso. Ora acontece que cá, a maioria dos miúdos são mais francófonos do que lusófonos.

 

Não falam português?

A maioria não entende português. Aliás há uma coisa muito interessante: quando se conversa ou se confessa miúdos, mentalmente eles têm dois anos de diferença, segundo a língua em que se exprimir. Quando eu converso com um miúdo de 9 anos, ele tem uma mentalidade e diz as coisas de uma maneira diferente, do que se eu falar com ele em português.

 

Então, porque não lhes falar em francês?

A religião em português tem a ver mais com o aspeto cultural, daí propor Catequese bilingue, e é isso que nós estávamos a fazer. É um ponto interessante e temos de acompanhar isto bem perto.

 

A igreja portuguesa…

Não há uma igreja portuguesa. Há uns bispos portugueses. A maneira como as coisas são feitas em Portugal, mesmo em relação à Catequese, é muito fraca, porque a maioria das pessoas que fazem os catecismos são pessoas da organização e não se apercebem que a maioria do povo já não vai à igreja e daí ser necessário optar por outra linguagem.

 

Acha que as pessoas têm medo de vir à igreja no seguimento dos atentados terroristas?

Não. Que eu note, não. A questão do terrorismo sempre existiu.

 

LusoJornal / Carlos Pereira

 

Como vê este terrorismo islâmico radical?

Eu, quando era jovem, tive de lutar contra terroristas. Fui Fuzileiro Especial e estive em Angola a comandar um destacamento. A gente chama sempre terrorista ao inimigo, mas há muitos tipos de terroristas e temos de pensar mais calmamente no que estamos a falar. Uma coisa é ser guerrilheiro, a outra coisa é usar uma arma para meter medo. Por outro lado, não se trata só de um lado os terroristas e do outro os inocentes, temos que ver o terrorismo num conjunto. Ora, nós como não nos preparámos para isso, achamos que somos os inocentes, mas não somos.

 

Mas hoje, o terrorista mata em nome de Deus…

E os milhões que foram mortos em nome da Fraternidade? Nós arranjamos sempre uma ideia para justificar a nossa consciência. Na primeira e na segunda Guerra Mundial matámo-nos uns aos outros, e em nome de quê? Éramos cristão e rezavamos todos. E os outros massacres, nos Gulags, na China, onde se matava em nome do Povo? O que nós precisamos é sempre de arranjar uma razão para justificar os nossos atos. Estes matam em nome de Deus, outros da Liberdade, outros do Povo,… estamos sempre a arranjar uma razão para que a minha consciência me permita torturar.

 

Está quase a desculpar os terroristas…

Não estou a desculpar, estou a dizer que, se eu quero acabar com o terrorismo, tenho de descobrir o que é que o origina. É muito mais sério. Nós estamos a ajudar que gente se torne extremistas. E quando um Norueguês matou 64 pessoas e não teve nenhum problema de consciência, ainda há gente que o apoia, e podemos falar aqui à nossa volta de pessoas que são capazes de escravizar operários em empresas que a gente domina. A questão é que são criados mecanismos que criam revoltas e que têm de ser desativados.

 

Foi difícil o seu serviço militar?

Eu sou Oficial de Marinha, nessa altura éramos obrigados a ser Fuzileiros Especiais. Eu fui Imediato e depois Comandante de um destacamento de Fuzileiros Especiais em Angola. Ainda regularmente me encontro com esses homens e com as viúvas de outros. Conheci na guerra situações muito difíceis porque tinha de trabalhar com a informação, com a tortura e com a espionagem. Aos 26 anos tive de tratar do que outros tratam aos 46. Isso pôs-me imensos problemas e a uma dada altura eu achei que, de facto, apesar de tudo, Deus é pai e que vale a pena que as pessoas descubram que pode ser diferente. Só não podemos é deixar a situação continuar.

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