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A expansão do populismo tem conduzido a uma amálgama de certos conceitos presentes nas nossas sociedades desde tempos imorredoiros. Daí que careça ser uma necessidade premente separar as águas entre dois conceitos muito em voga nos últimos tempos: o multiculturalismo e o cosmopolitismo.

O multiculturalismo é o exato oposto de uma cidade aberta, plural e cosmopolita: pode simplesmente designar uma sociedade onde convivem diferentes culturas. O conceito pode ser considerado em sentido descritivo ou normativo: no primeiro caso refere-se a uma sociedade na qual culturas diferentes interagem no espaço público e lugares comuns como por exemplo na escola ou nos locais de trabalho; no segundo atribui-se a uma dada sociedade que implementou sistemas normativos que favorecem uma interação social baseada no respeito profundo pelas diferentes identidades culturais que interagem e comunicam no espaço público.

A definição e a existência do multiculturalismo configura uma relação entre o Estado e as minorias de modo a que, o primeiro, deva consentir aos que se identificam culturalmente com uma específica comunidade, de a manter, salvaguardar, promovendo a diferença cultural, cuja dignidade e peculiaridade deve ser reconhecida e respeitada pelos outros.

O cosmopolitismo encerra em si uma noção bem diferente do multiculturalismo. Quem defende o cosmopolitismo – isto é o cosmopolita – considera-se a si mesmo como “um cidadão do mundo”, ou seja, põe de lado as diferenças sociais e políticas entre o Estado e as nações. Aqui, convém realçar que existem Estados com várias nações no seu seio como é o caso de Espanha ou mesmo da Bélgica, onde existem várias nações (povos com cultura, hábitos e línguas diferentes – Francófonos, Flamengos e Alemães – no caso Belga). O cosmopolitismo refere-se à espontânea racionalidade da condição natural do homem caracterizada pela ausência de qualquer instituição que deseje regular a sua vida.

O cosmopolitismo pode assumir duas componentes: um significado individual de contraposição à sociedade, ao revindicar a própria autonomia e de recusar qualquer diferenciação étnica, cultural, nacional e religiosa. Se um cosmopolita defende a diversidade e a miscigenação no mesmo chão comum baseado na herança do direito natural (os direitos inalienáveis de qualquer indivíduo independentemente da sua origem geográfica, étnica ou religiosa), o multiculturalista defende a diversidade sem mistura, porque recusa a ideia de chão comum, recusa a ideia de que possa existir uma lei universal para o homem.

Se o cosmopolitismo pugna pela igualdade perante a lei de todos os indivíduos independentemente da sua origem, o multiculturalismo luta pela desigualdade legal das comunidades.

Tal como o nacionalismo, o multiculturalismo assenta a sua base filosófica no choque das civilizações, na ideia que raças (há já bastante tempo que a sociologia baniu este termo – raça. A raça, é a raça humana não há outra. Ao invés, deve dizer-se etnia – branca, negra, etc) e religiões não podem conviver no mesmo espaço político. Existem certas correntes políticas que usam deste pessimismo culturalista para defender a expulsão do “outro”, alegando por exemplo, que existem povos ou nações demasiado bárbaros para compreenderem conceitos como Estado de direito, Direito natural ou Direitos Humanos.

Outras correntes políticas, usam este pessimismo para defender a segregação através do Estado social, impedindo que o “outro” estabeleça contacto com as leis e costumes da maioria, alegando que o Direito natural e o Estado de direito são manifestações eurocêntricas.

É verdade que o choque de civilizações até poderá ser inevitável. Mas também é verdade que, por enquanto, temos o dever moral de tentar evitar esse choque.

O cosmopolitismo liga-se facilmente ao pacifismo em virtude da guerra ser vista como produto de contrastes ilusórios provocados por uma falsa diferenciação que conduz ao antagonismo. Não há cosmopolitismo sem raízes, não há ética cosmopolita sem pátria. Um bom cosmopolita é um bom anfitrião que domina as artes da hospitalidade. Ser cosmopolita é tratar bem aqueles que visitam a nossa casa. A jusante, só podemos ser bons cosmopolitas se mantivermos a montante uma enorme estima pela nossa própria casa; só podemos amar a Humanidade se amarmos o vizinho, só podemos ver a Humanidade num estrangeiro se amarmos a nossa rua, a nossa cidade, a nossa pátria. O cosmopolitismo pode assimilar-se ao universalismo na exigência de superação das diferenças sociais e políticas.

Conexo ao cosmopolitismo pacifista, é o ideal federalista, desenvolvido sobretudo na filosofia de Kant, como condição para se conseguir a paz perpétua entre os povos.

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