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A escritora Ana Pessoa vai apresentar no próximo dia 16 de fevereiro, às 18h00, na livraria Librebook, em Bruxelas, o seu terceiro livro “Mary John”. A autora é tradutora, mora na Bélgica há 10 anos (fez 10 anos no dia 31 de janeiro) e já publicou “O caderno vermelho da rapariga karateca” e “Supergigante”, todos na coleção juvenil da editora Planeta Tangerina, e todos ilustrados por Bernardo Carvalho.

Antes de chegar a Bruxelas, Ana Pessoa morava em Trier, na Alemanha. Depois aceitou um contrato de 10 meses para ser tradutora no Conselho Económico e Social, onde acabou por ficar 6 anos, antes de se mudar para o Conselho da União Europeia. Traduz sobretudo de inglês para português.

 

Como começou a escrever?

Sempre escrevi muito. A nossa relação com a escrita começa com a nossa relação com a escola e eu tive muito bons professores. Professores primários e depois professores de português. Houve sempre um grande entusiasmo dos meus professores em relação à leitura, em relação à escrita. Lembro-me que havia aulas dedicadas à escrita criativa. Comecei a escrever muito miúda e lembro-me de textos meus distribuidos pela turma.

 

E como eram os seus primeiros textos?

A coleção “Uma aventura” da Isabel Alçada e da Ana Margarida Magalhães foi uma coleção que me acompanhou muito durante a infância e a pré adolescência e essas personagens marcaram-me muito. E eu escrevia aventuras inspiradas destas personagens. E desenhava muito também. Nessa altura nós estamos muito em criação do ponto de vista da palavra e do desenho.

Com 11 anos achei que podia escrever um policial. Escrevi um livro com imensas páginas, bastante longo, em que morria imensa gente. É um livro bastante violento (risos).

Por volta dos 13 anos comecei a escrever coisas muito filosóficas sobre a nossa relação com o nosso próprio corpo. Porque razão estamos dentro do nosso corpo e porque não podemos trocar de corpo e viver experiências a partir do corpo de uma outra pessoa? Escrevi tanto durante a adolescência que isso veio marcar a minha vida de adulta. A minha expressão criativa tem muito a ver com essas primeiras experiências da infância e da adolescência.

 

Em 2012 publicou “O caderno vermelho da rapariga karateca” e ganhou o Prémio Branquinho da Fonseca. De que fala o livro?

Eu queria escrever um livro juvenil, mas não sabia por onde começar. Comecei com uma experiência muito pessoal, com a minha própria adolescência, cresci numa cidade e a fazer karaté duas vezes por semana. Comecei também por escrever sobre a minha relação com a escrita, com os livros e com a imaginação. É pois um livro que fala sobre karaté, o que significa ser uma rapariga, se é possível apaixonar-se por alguém quando tens por base o karaté e a luta, o que significa ser romântico, a tua relação com Deus e o sentido da vida. É um livro feito de pequenos episódios, quase um caderno de apontamentos e que podia ter sido o meu caderno. Tem uma escrita humorística, bastante irónica.

Ao ganhar o Prémio Branquinho da Fonseca da Fundação Calouste Gulbenkian, tive a sorte de não ter de andar à procura de uma editora. A Isabel Munoz Martins, autora da maior parte dos textos da Planeta Tangerina, e a editora, leram o texto, gostaram e decidiram apostar numa nova coleção juvenil, começando com este meu livro.

 

O livro tem ilustrações de Bernardo Carvalho, como todos os seus livros. Como surgiu esta colaboração?

A Planeta Tangerina destacou-se muito com os seus álbuns ilustrados. Quando contactaram a Gulbenkian, a proposta foi logo a de um livro com ilustração. A ideia agora parece-me óbvia, mas na altura, não foi. Estivemos a considerar, com a Gulbenkian, até porque outras editoras queriam editar sem ilustração, numa edição mais clássica. Mas eu já era uma grande fã do Bernardo Carvalho. E tem corrido muitissimo bem. Os três livros são ilustrados, são livros muito bonitos, dá vontade de pegar neles e cheirar, mesmo se me fica mal dizer isso porque sou a autora.

 

O seu segundo livro demorou dois anos a chegar…

Tive uma relação muito má com a publicação. Não com o livro, porque continuo a ter muito orgulho neste primeiro livro. Mas depois dele sair, as pessoas exigiam que eu escrevesse logo um segundo livro. Eu até escrevi às escondidas porque queria que a Karateca tivesse uma vida mais prolongada.

 

Em 2014 publicou “Supergigante”, também com ilustrações de Bernardo Carvalho. De que fala o livro?

É um livro bastante denso, muito filosófico, de frases muito longas, que lidam com a morte, com a nostalgia, de veres o tempo a passar e sentires que estás quase atrazado para a tua própria vida, porque as coisas estão a acontecer-te muito rapidamente e quando perdes alguém as coisas perdem também um certo sentido. Este rapaz adolescente está num momento de grande felicidade na vida dele e de repente sente que não pode ter essa felicidade porque o avô morre.

A história passa-se quase toda no dia do funeral, em que ele desata a correr. A história do livro é ele a correr pela cidade e a lidar com estes pensamentos, que são o primeiro beijo, apaixonares-te, perderes alguém, sentires que perdeste a oportunidade de seres próximo de alguém, os problemas com a tua família, com a escola, com os teus amigos, é um livro muito intenso e angustiante. De todos é o mais parecido com o conceito original.

 

Finalmente – um livro todos os dois anos – no fim do ano passado (2016), publicou “Mary John”. De que fala o livro?

A Mary John é uma rapariga adolescente que está a libertar-se de uma relação muito obcessiva com um rapaz com quem ela cresceu durante a infância e a adolescência. É uma carta, muito frontal e por vezes um pouco violenta e nessa carta ela tenta lidar com a história que ela viveu com este rapaz, durante a infância, como ela se afirmou como rapariga, brincando com ele naquela praceta, o que significou a chegada de todos os outros amigos, o que significa para ela ser cada vez mais mulher e como é que isso surgiu, há muito esta relação com o nosso próprio corpo, fala-se do período, de sexualidade, da evolução do corpo… A Maria João muda de casa, de escola, de amigos e tudo isto permite-lhe uma libertação muito grande em relação ao passado.

 

Qual é a parte de autobiografia nos seus livros?

Tenho muita dificuldade em lidar com esta questão da autobiografia porque todas as situações por onde passamos, estão relacionadas com a nossa própria história. A acumulação das nossas experiências, é a nossa vida. É natural que quando estamos a fazer algo criativo, nos baseamos sempre na nossa perceção das coisas. O que não quer dizer que seja a história da nossa vida. Eu não acho que seja a Mary John, nem a Mary John é uma representação de mim própria, longe disso. Mas há certas experiências que eu conheci, seja como observadora, seja como participante ativa. Por vezes eu vivo na pele na Mary John, por vezes vivo na pela da sua inimiga, por vezes vejo-me na pele dos rapazes que também habitam os meus livros.

 

Como sente ser escritora em Portugal, mas morar em Bruxelas?

Sermos estrangeiros e estarmos longe da nossa língua e do nosso país, permite-nos ganhar distância em relação a nós próprios. É como se estivessemos condenados a um anonimato que pode ser aterrador, mas que ao mesmo tempo também é bastante libertador. Eu não vejo os meus livros nas livrarias, não estou propriamente no meio literário, não conheço outros escritores, estou bastante isolada a fazer o meu trabalho e acho que isso me permite também, às vezes, não ter muita noção das coisas, correr certos riscos que poderiam não ser os mais recomendáveis e por outro lado, permite libertar-me dessa pressão. Uma coisa que não está presente em mim é o facto de ter que me afirmar como escritora.

 

“O caderno vermelho de uma rapariga karateca” já está editado em língua espahola, na Colombia e “Supergigante” está publicado, também em espanhol, no México. Os dois livros também já têm edição em português do Brasil.

Ana Pessoa gostava de ver a sua obra publicada em inglês e em francês. Mas para já, os três livros, em português, podem ser comprados na nova livraria – tem cerca de 6 meses – multicultural de Bruxelas, a Librebook.

 

Quinta-feira, dia 16 de fevereiro, 18h00

Apresentação de “Mary John” de Ana Pessoa, com ilustração de Bernardo Carvalho

Por Pedro Sena-Lino

Librebook

Chaussée de Wavre 128

Bruxelles

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