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Vítor Ascenção veio para a Bélgica nos anos 60

 

Vitor Ascenção trabalhou nas Instituições europeias, é membro fundador do núcleo de Bruxelas da Associação José Afonso (AJA) e é presidente da Musiek Republik, uma instituição de promoção de “Músicas do mundo” que gere o Théâtre Molière, em Bruxelas.

Mas chegou à Bélgica nos anos 60, fugido à ditadura de Salazar.

 

O que o trouxe para a Bélgica?

Antes de vir para a Bélgica tinha o mesmo problema que muitos outros jovens da minha idade, contra o Governo, contra a oposição, militávamos quando podíamos. O pretexto que me levou a sair de Portugal foi que estava a estudar no Instituto Superior de Psiciologia, que tardou a ter reconhecimento do Estado e de modo que não dava direito a ter adiamento para o serviço militar. Então, como não queria participar naquele jogo colonial, resolvi interromper os estudos e vim para aqui terminar os estudos.

 

Acabou por não ir à tropa…

Saí 10 dias antes de entrar para o serviço militar. Simplesmente nem tudo foi fácil, tive que pedir um passaporte e um visto. O pretexto para sair do país era ir passar um fim de semana à Espanha e vim com pessoas que iam passear de caravana pela Europa, ajudei até a conduzir e vim-me assim embora. Não vivi aqueles momentos épicos nem fui desertor, fui apenas refratário e ao chegar aqui pedi de imediato o estatuto de refugiado da ONU, a máquina pôs-se logo em andamento. O acolhimento foi importante, estava nos sindicatos cristãos, estava no ‘Movimento Operário Cristão’ e aí encontrei um certo apoio, comecei a traduzir para um jornal sindical e participei na estrutura de acolhimento aos emigrantes e portanto foi muito interessante e que me serviu para o resto da vida que tive aqui.

 

Vinha já com ideias de vir para a Bélgica?

Eu vim por aí fora, Espanha, França, países que não davam o estatuto político porque havia o negócio das armas, eu desenrascava-me bem em francês e portanto aqui estava bem porque na Holanda, na Suécia,ou noutros países nórdicos, não falavam francês, e aqui também tinha contactos, daí ser mais fácil ficar aqui.

 

Já havia Portugueses aqui radicados?

Sim, havia Portugueses sobretudo em torno das associações, muitos ligados ao Partido Comunista. Havia uma estrutura de acolhimento que eu beneficiei também, mas o meu acolhimento foi no meio do sindicato cristão ligado nessa altura ao sindicato socialista.

 

Esteve até 1974 sem ir a Portugal, como passou o tempo sem ir lá?

Aquilo que é mais complicado é que não há perspetiva. Saímos do país, e talvez para sempre. Essa é a grande dificuldade, e temos que orientar a nossa vida ficando por aqui, a família vai crescendo e vai havendo ligações ao país que nos acolheu e eis a razão pela qual ainda cá estamos.

 

E isso explica que em 1974 não tenha regressado a Portugal?

Não, não regressei porque já tinha filhos e a estrutura médica em Portugal não era nada convidativa nessa altura, e para proteger a família acabei por ficar por cá.

 

Não tinha ambições políticas?

Não. Tinha aqui um emprego ligado à segurança social, eu criei nas mutualidades cristãs, uma estrutura de acolhimento para os estrangeiros, entre outros tinha uma secção portuguesa e criei campanhas de publicidade para angariar sócios para as mutualidades cristãs e isso ajudou-me a ter muitos contactos com a Comunidade que nessa altura havia uma grande emigração clandestina, que não tinha estatuto, e precisavam de ser protegidos e ajudados a estabelecerem-se. E isso foi também um leitmotiv para estar cá e ter um papel de acolhimento de outras pessoas que vinham em situações precárias também.

 

Como é que os Belgas acompanhavam a situação em Portugal?

A imprensa belga falava, mas como falava também dos outros países. Falava-se dos ditadores, mas não havia maneiras de agir, havia um status quo, os circuitos económicos estavam bem estabelecidos, eram preservados pelas pessoas que não queriam ser intervencionistas. Falava-se, havia uns certos meios de esquerda que ficavam escandalizados como agora, mas isso não leva a agir porque havia interesses económicos, havia o medo do desemprego, e portanto não havia muita ação.

 

Mas acolher estrangeiros já era uma forma de agir…

A Bélgica sempre foi uma terra de acolhimento, nas diferentes fases de refugiados que chegaram. Sempre acolheu e continua a colher. A Bélgica tem tradição de acolhimento, acolhe bem as pessoas e não podemos deixar levar-nos pelo discurso de extrema-direita que alega que não há segurança e tentar ligar os fenómenos de terrorismo ao acolhimento dos refugiados, isso parece-me algo perigoso que devemos evitar.

 

Os Portugueses têm uma palavra a dizer em relação a estas questões de refugiados?

Sim, porque o facto de termos sido bem acolhidos já naquela altura, dá-nos o direito, não a obrigação, de testemunhar que é uma tradição na Bélgica que sempre assumiu e se posiciona do ponto de vista humanitário muito favoravelmente. Vimos que na França ainda é possível condenar pessoas que clandestinamente acolhem e ajudam os refugiados, enquanto aqui na Bélgica não. Aqui há uma exceção humanitária que leva as pessoas a ajudar os refugiados sem correrem nenhum perigo em relação à justiça.

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